|
Criador
de imagens pelo desenho e pela cor, de figurações em azulejos, de formas
de barro, João Fortio surpreende-nos agora, depois dos cinquenta, como
escritor, proeza rara nos pintores portugueses, incapazes quase sempre
de seguirem o alto exemplo de Almada Negreiros. Bem se sabe que há
pintores e pintores. Há aqueles que são só olhos e mãos e aqueloutros,
superiores, que o pensamento ilumina e move, mãos e olhos. Como é o caso
do próprio Fortio nos seus quadros, do ignorado Carlos Aurélio e do
muito celebrado Espiga Pinto. Todos alentejanos, todos filhos da cólera
e do amor.
O livro de João Fortio não
perde na comparação com os seus quadros, os seus desenhos, os seus
azulejos, ainda quando tenha nestes figurado uma Isabel de Portugal sem
paralelo na vasta iconografia da Rainha Santa.
“Demasiado” não é
demasiado. Lê-se, de atenção subjugada, do princípio até ao fim. O autor
escreve conversando com o leitor como consigo mesmo num estilo
inconfundível, contando-nos uma história que é a da própria humanidade
no fim dos tempos. E, embora essa história se envolva de fantasia, é
esta tão verdadeira que não podemos deixar de tomar consciência, através
dela, da realidade que hoje vivemos dolorosamente na religião, no ensino
e na política.
|
|